segunda-feira, março 02, 2009

reflecçõeseõçcelfer

Não.
Não senhor. Tu não queres que te explique o complexo mecanismo de um espelho.
Desde logo porque ele pouco mais precisa, para o ser, que ser liso.
Complexo, complexo é lidar com saias que esvoaçam bem acima do teu nariz, com rugas de que não deste pela chegada, dores que já não passam, belezas que brotam onde as esperavas ontem, o genial que te ultrapassa apenas montando uma bicicleta...
Levantas um dedo e ele também. Fintas de anca e ele em cima, sem largar. Sorris de 25 maneiras diferentes e ele adivinha-os a todos chegando lá precisamente ao mesmo tempo que tu.
E ele de tão simples inspira-te a complexidade de como tu te vês?!
Pois sim, bem que este ângulo não te favorece, mas julgas-te então uma singular deformidade da espécie?
Mas o espelho não é complexo. Pode ser convexo...mas complexo, não. Este pelo menos não o é.
Trata-se de um mero transitário da tua imagem, não o agridas, poisa esse cinzeiro imediatamente!... não o queiras complexo só para que lhe possas virar as costas com a esperança de um dia conseguires desmontar essa vasta e arguta maquinação que alguém montou enquanto dormias com o único propósito de te encardir os dias, a ti, logo a ti, pessoa tão sensível e impecável por dentro, nesse lá no fundo bem no fundo que não há espelho que te a demonstre.
O espelho não tem cérebro, não tem infância, não tem ânsias, necessidade de reconforto... é mesmo bastante simples agora que o vejo de perto, não o vês tu também?
Agora, acreditares que tamanhas capacidades se debrucem sobre ti é já complexo quanto me baste para que me recuse a explicar-te a complexidade do mecanismo.
Diabo, não é geringonça nenhuma, te garanto! Não há homens pequeninos, animais bestiais ou duendes viscosos a sorrir à socapa aqui por detrás do espelho.

És apenas tu, aí defronte.

Etiquetas:

sábado, maio 03, 2008

Mulher da Vida



Eu hoje vi-te.

Vi-te, mirei-te, adivinhei-te e blábláblá de cortesia nunca dita.
Fiquei três filas de machos possessivos atrás de ti fixando o teu nariz anguloso.
Rindo-me da sua cabotinice, aguardando uma frincha de ti que te expusesse interessada num convite para pequeno almoçar no fim da linha do eléctrico de Sintra (ou na Cova da Moura, ou no Sr. Roubado ou no Barreiro...).

Admirando a tua ausência de peito esmagado sob o peso da transumância de T. S. Eliot (o único Eliot que eu conheço de um só T), deixei-te na tua espera quando um, dois, três degraus, decidi esquecer a britanicidade que porventura teremos em comum e esfreguei meu visa mastercard no leitor de passes sociais, e lá fui desejando, que como aquela guarda-freios, cantasses músicas que eram só tuas enquanto calcavas descalça os pedais do trem. E como queimavas vermelhos melhor do que eu que me entretia desejando esmagmatizar de caruncho aquele madeirame líquido de eléctrico!
Aliciaste-me a convencer-me que acreditava que dirias um sim que me encorajou a urinar na porta de um wc ocupado. Vermelho, vermelho, verde, amarelo, vermelho, vermelho, "deixe-me sair aqui!", fizeste-me contemporizar com as mulas carregadas da aurora, sorrir ao negro que esqueceu sua família quando confrontado com as mesmas coxas que me fizeram trincar Jesus, tu fizeste tudo isto sem que saibas.

Encontrei teu isqueiro. Tu andarás sabe-se lá por onde e por quanto tempo mais com uma sacola "Vulcon" até que eu te confesse porque me gargalhava a 3 corpos de distância de ti.

Etiquetas: